citystream – Splatter + Rafal Mazur / Bay’s Leap

Splatter + Rafal Mazur – Cloudseed

Por vezes é preciso recuar no tempo para contextualizar o presente. Este exercício, que deve ser recurrentemente realizado, não se prende apenas ao facto de o passado poder ser a peça fundamental de uma lógica causal, fonte de respostas e explicações, mas, sobretudo, e porque este raciocínio de encadeamento frequentemente se revela inconsequente devido à complexidade inerente à realidade, para revisitar sentimentos presentes que haviam, anteriormente, emergido à luz de uma diferente conjectura. A audição de Cloudseed – um álbum que resultou de um encontro entre o quarteto londrino Splatter e o polaco Rafal Mazur – é um belo exemplo do segundo exercício, que deve ser feito, não só, de uma perspectiva puramente lúdica, mas, também, como a realização de que, afinal, o mundo não mudou assim tanto – as circunstâncias apenas nos obrigam a observá-lo de um lugar diferente. 

Devido à distância que, ao longo deste Cloudseed, os Splatter + Rafal Mazur mantêm em relação ao ouvinte, diríamos que, se tivesse sido lançado nos tempos actuais (o disco veio a público em 2013), os músicos haviam integrado em si religiosamente as regras do distanciamento social. Porém, apesar do ambiente frio que rodeia a obra e da neblina que desde o início se abate sobre o grupo, Cloudseed está repleto de criativa musicalidade que, não obstante ter sido gravado sob a premissa da improvisação total, apresenta uma agradável coerência que facilita a penetração do ouvinte por essa bruma insular. A estética é moderna e, mais do que um álbum de pura improvisação livre, Cloudseed poderá, porventura, ser definido como um disco de free jazz contemporâneo: free por ser improvisado e sem estruturas pré-definidas; jazz, certamente, e de índole europeia; contemporâneo pela sofisticação da produção e dos ambientes criados, não esquecendo, pois claro, a transversal mescla com a – latamente definida – dita música contemporânea. Mas, antes de mergulharmos na análise da obra, passemos às obrigatórias apresentações: os Splatter são formados pelo clarinetista Noel Taylor (fundador da citystream e que, desde 2017, se encontra a residir em Lisboa), por Anna Kaluza, que se apresenta ao comando do saxofone alto, pelo português Pedro Velasco, na guitarra eléctrica, e pelo baterista Tom Greenhalgh, ao quais, por fim, se juntou Rafal Mazur, na guitarra-baixo acústica .

Cloudseed deve ser escutado como uma viagem, dado que existe uma clara estrutura que longitudinalmente atravessa toda a obra. Temas como “To Boldly Go”, “No You Don’t, Yes I Will”, “Fog on Ice”, “Yah Boo Sucks”, “Inglenook Tales”, “The Cat’s Sweet Dream” são de génese meditativa e contemplativa, desenvolvendo-se através de atmosferas lentas e letárgicas. Neste conjunto também se enquadra “Pond Life”, uma bela ode à natureza onde se escutam interessantes modelações como, por exemplo, o bater de asas das aves que neste lago se encontram. Por outro lado, faixas como “Arise Ye Starvelings”, “Bronco Beat” e “Home Time” aproximam-se mais do tradicional free jazz, com dinâmicas mais aceleradas, intervenções marcadamente mais acutilantes, com os sopros a abandonarem a sua sonoridade mais suave e a bateria a assumir um papel mais rítmico. Já temas como “Slam Dunk”, “Cocoa & Slippers Jive” e “Stag Beetle Waltz” situam-se a meio-caminho entre as anteriores categorias.

Em termos de dinâmica de grupo, escutam-se frequentes diálogos entre o clarinete de Taylor e o saxofone alto de Kaluza que, maioritariamente, se apresentam num registo límpido e cristalino, entrelaçando-se e complementando-se sem nunca se excluírem. Além disso, a guitarra-baixo acústica de Rafal Mazur tem, também ela, um papel interessante, pois, o facto de ser mais manuseável do que o clássico contrabaixo, permite que Mazur a toque com considerável destreza e velocidade, modo de acção que seria bem mais difícil com o instrumento tradicional. Desta forma, Mazur assume mais do que um simples papel de suporte rítmico, arriscando-se, também ele, por vezes, a incursões melódicas. Já a bateria é, maioritariamente, cénica e textural, com escassos momentos de pura afirmação rítmica – exceptuando os temas que, anteriormente, defini como mais próximos do free jazz -, contextualizando, muito mais, a atmosfera e gerando, assim, espaço para que os restantes membros do pequeno ensemble definam as tonalidades da experiência. Por fim, a guitarra de Velasco é pouco dada a divagações melódicas (salvo situações pontuais como, por exemplo, no tema “Yah Boo Sucks”), assumindo-se muito mais como um instrumento de suporte, criador quer de harmonias que potencializam a expressão dos sopros, quer, simplesmente, tocando notas soltas que se prolongam e ecoam acompanhadas dos efeitos que lhes impõem, ou, até mesmo, juntando-se à bateria como fonte de granularidades e rugosidades. Em suma, Cloudseed é uma excelente viagem, conduzida por um conjunto de músicos com personalidade, identidade e que, acima de tudo, dominam o que fazem. Um álbum para se ouvir em dias cinzentos….

Bay’s Leap – Swans Over Dorking

Quem um dia ousou pensar que a música erudita não se pode desprender da formalidade que a si está intrinsecamente associada ficará, com certeza, a duvidar das suas próprias convicções após a audição deste Swans Over Dorking, um álbum de 2016. Numa sessão de improvisação livre com pouco mais de 42 minutos, os Bay’s Leap – trio composto pela pianista Clare Simmonds,  o clarinetista Noel Taylor, e o violoncelista James Barralet – derrubam todo e qualquer cânone que, porventura, impusesse a obrigatoriedade da leitura de pautas, dando forma a um álbum que cobre a música dita erudita com as vestes da improvisação livre – dois mundos que raramente se fundem e que, inclusive, aos olhos dos mais puristas, são dois domínios mutuamente exclusivos. Assim, está claro que esta visão da relação música erudita/improvisação livre – felizmente, diga-se! – não é partilhada pelos membros dos Bay’s Leap, que, aqui, fazem uso da lente da espontaneidade e comunicação ad hoc como forma de expressão. E fazem-no maravilhosamente – que justiça lhe seja feita! Aliás, se há algo que se retira deste disco é que, se a música de improvisação já é a expressão do que mais essencial e genuíno há no interior cada músico, ao se lhe adicionar a componente erudita confere-se-lhe um elemento de elegância e “falsa formalidade composicional” que incrementa as dimensões e possibilidade estéticas. Desta forma, Swans Over Dorking soa a música de câmara – com laivos de alguma contemporaneidade, é certo – resultado de longas e árduas sessões de ensaio. Ironicamente, não poderíamos estar mais longe da verdade em relação às longas sessões de treino, pois é, unicamente, a riquíssima bagagem interior que cada músico consigo transporta que permitiu a criação desta versão improvisada deste tipo de música.

Esteticamente, Swans Over Dorking é um álbum em que ideias do modernismo se mesclam com componentes mais avant-garde. Em termos de dinâmica e entrosamento, o trio comunica de forma suave e segura, com solos individuais a alternarem com diálogos, ora em pares, ora em trio. Ademais, todos os instrumentistas apresentam várias facetas e personalidades: o piano ora é mecânico e incisivo, ora brincalhão e colorido. O clarinete ora é límpido e cristalino, ora seco e gutural. O violoncelo ora é doce e etéreo, ora seco e áspero – daquela asperidade que poderia, facilmente, ter sido originada por um arco sem resina. Para além disso, interessantemente, escutam-se reminiscências de várias referências a compositores do modernismo: A Sagração da Primavera, de Stravinsky, é, por exemplo, revisitada pelo violoncelo de Barralet. Deste modo, e apesar de toda a improvisação, o mais irónico de Swans Over Dorking é que se escuta como se tivesse sido resultado de um árduo e longo trabalho de composição. Ah! Como sabe bem enganar a intuição…

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